Por mais libertários e independentes que sejamos, querendo ou não, cumprimos, sempre, papéis dentro de sistemas. É simplesmente impossível viver sem a função dessa cadeia "zoologicamente social". Senão os humanos não teimariam em subsistir em seu grupo; e é o que, na verdade, constitui a interface do espectro de sua individualidade.
Sistemas e papéis são uma fórmula, muitas vezes tácita, que o ser humano encontrou de se não autodestruir. É o seu grande arquétipo de "permanência móvel", através da qual ele muda, mas sem deixar de se auto-distinguir. Esse movimento de sobrevivência e de identificação é comum a todo e qualquer agrupamento étnico.
É possível que hajam imperceptíveis mudanças no ethos que, na prática, se acoplam behaviorísticamente ao sistema no tempo e espaço e provocam outras mudanças, até que, o sistema influenciado por elas, vão tomando forma de "macro-sistemas", mais atualizados e adaptados ao seu contexto vivencial.
Os papéis, dentro desses sistemas, quase sempre, são formatados através de fantasias, lendas, histórias e mitos. São legados genético-culturais que os antepassados reproduzem, como importantes formadores de nossas opções, opiniões, decisões, ações e reações. Lá, bem no fundo, somos o que genética, psíquica e socialmente herdamos. Cabe ao diferentes papéis que assumimos manter viva a "memória" do que somos e do que seremos na memória dos pósteres. Em todas as idades da vida (infância, adolescência, juventude, maturidade e senectude), obrigatoriamente, cumprimos nossos papéis dentro desses sistemas.
Mesmo quando criamos tensão dentro sistema (como soe acontecer na adolescência), na verdade, estamos "provocando" o sistema até o quanto lhe pode ser crível e sustentável. Essa tensão, às vezes, até enrijece e fortalece ainda mais a importância do papel a ser exercido naquele dado contexto social. Qualquer ação versus reação busca, na verdade, equilíbrio, constância, sobrevivência, perpetuidade através de um, muitas vezes, complicado movimento de "dinâmica repetitiva" (dialética histórica?), ou seja, estar sempre em movimento circular (repetitivo) para nunca deixar de ser o que é. Tudo pode mudar, de menos as hierarquias sustentadas pelos sistemas e papéis.
A partir da nossa "micro" cultura, é possível que julguemos um sistema familiar ou tribal estranho e diferente do nosso. Mas o que não se pode negar é que aquele sistema e papel sustentaram aquela cultura estranha, de tal modo que sobreviveram tanto quanto à nossa às crises, convulsões sociais, bolsões de resistência étnica e etc. Esses sistema e papéis podem, sob o nosso juízo, nos parecer xenófilos e até patológicos, mas serão sempre para aquela cultura simbióticos, sinérgicos e com alto poder de "feed-back" social. O que poderíamos chamar de "bio-filia étnica".
Como o homem pós-moderno arrosta esses sistemas e papéis? Qual é a sua postura dentro dessa "ditadura sistêmica e necessária" - aliás, a história da civilização só pode ser escrita diante da renúncia das liberdades instintivas, sem a qual nenhuma etnia sobreviveria- se ele não acredita mais em valores, em mitos, fantasias e utopias?
Se tudo em que ele acreditou até agora (religião, razão e ciência) não "deu em nada", o "nada" então foi que restou para acreditar. O niilismo então é mesmo o verdadeiro traço psíquico e social do pobre e decepcionado homem do século XXI.
Cícero Brasil Ferraz
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