Até a queda do muro de Berlim (1989) pairava sobre o imaginário filosófico, a ideia de que havia um certo "benefício da dúvida" quanto o que seria melhor para a sociedade mundial . O mundo girava e se equilibrava por entre dois poderosos pólos: O Capitalismo e Socialismo (uso este termos de forma mais genérica possível). Os argumentos - e quase sempre consistentes-, de ambos os lados, nos equilibravam com uma gostosa sensação de que um agregava mais valor, ainda, ao outro. Ou, então, no futuro, haveria de nascer uma síntese que pudesse animar (dar alma) ao próprio ciclo indefectível da história, a partir desses pólos.
A prevalência do capitalismo como uma nova monergia mundial, para muitos, foi, o descortinar de uma nova, duradoura e próspera fase da história. Mas o que aconteceu, afinal, é que o pêndulo sem equilíbrio (produzido pelo seu lado o oposto) perdeu de forma abrupta o controle das relações plutônicas, o que provocou uma desregulamentação global. A desastrada liberdade concedida ao capital e ao mundo business, o repúdio a todas as razões não econômicas custou-nos, a todos, o cerceamento das outras liberdades e das redes de segurança, tecidas e sustentadas pela "mentalidade social". Essa plutocracia dominante levou também de roldão a força que balanceava as estruturas legais, os fóruns onde se debatiam os direitos universais, o estado do bem-estar, os direitos de negociações dos sindicatos, a força das legislações trabalhistas, até então, agenda prioritária da "política social".
A distribuição da riqueza das nações, agora, é administrada (manipulada) pelos órgãos internacionais que quase sempre, não levam em conta os princípios de isonomia, ou não atendem aquela velha máxima grega de que " os diferentes não podem ser tratados de forma igual".
Há algum tempo atrás, no novo império plutocrático - não sei se as estatísticas estão atualizadas- a rica Europa contava com cerca de três milhões de desabrigados, vinte milhões de "expulsos" do mercado de trabalho e trinta milhões que vivem abaixo da linha de pobreza.
Para esta nova ordem não cabe mais uma política que julgue decente e dignificante uma gestão que o crescimento do mercado seja uma garantia suficiente de oportunidades de autoenriquicimento, e nem de que também se deva interpretar a negação da liberdade de consumir bens gerados pelas riquezas das nações como humilhação ou descaso.
O que se observa, com tristeza, são poderosos chantageando outros poderosos com sua maquiagens contábeis, seus apertos de mãos ocultos nos refolhos dos saguões macroeconômicos. Nessa guerra de titãs os pequenos nem são notados e, quando são, comem apenas das migalhas que caem das mesas dos poderosos.
A lenta, mas implacável dissipação e esquecimento das habilidades das organizações sociais, conduz a outra parte da censura: a morte dos tecidos mais primários da sociedade, enquanto societas in cordibus, tais como o da família, da vizinhança e da boa convivência social entre os cidadãos onde o homem sempre encontrou cura para as sua chagas sociais e proteção contra a sua desintegração, enquanto ator social de sua cidade e de seu país.
Há um aspecto autofágico no império Capitalista: Só se vende quando há comprador (um truísmo, é claro). Se ele (o Capitalismo) for consumido pelos seus consumidores (os pobres),ele vai morrer, dado os limites de quem consome. Para a sua própria sobrevivência é necessário que ele crie ferramentas sociais para o ressurgimento de uma nova classe de consumidores que unifiquem as riquezas, gerando ainda mais riqueza, criando assim um novo pêndulo onde possa gangorrear "um novo círculo virtuoso".
Cícero Brasil Ferraz
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